VIDE: ICONOGRAFIA DO AGNUS DEI
Roberto Pla: Evangelho de Tomé - Logion 60
A primeira menção do cordeiro espiritual vem dada pelo quarto evangelho na boca do Batista quando vê a Jesus “vir” até ele e diz: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”.
- No dia seguinte repetirá o Batista seu anúncio ante os discípulos, mas sem explicar o sentido expiatório do Cordeiro (v. João Batista).
Como se sabe, na figura cristológica do Cordeiro se conjugam a imagem messiânica do Servo do Deuteronômio que carrega o pecado dos homens e o rito tradicional israelita da manducação do cordeiro pascal (Is 53,6; Ex 12,5). Ambas coisas teriam de dar-se em Jesus, certamente, enquanto Cordeiro de Deus espiritual e universal, quer dizer, “oculto”: mas desde a vertente manifesta surpreende a magnitude da afirmação do Batista de que o Cordeiro “tira o pecado do mundo”, quer dizer, todos os pecados, sendo assim que apesar de tudo, ainda subsistem sobre a terra. Por outra parte, não deixa de resultar estranho que o Batista conhecesse com tanta antecipação e tão perfeitamente o sentido superior da vida, paixão e morte de Jesus.
Tais dificuldades se resolvem quando se atende, tal como o fizeram sem dúvida os evangelistas, à exposição e desenvolvimento da vertente oculta. Dada a universalidade do Cristo interior, pois exerce sua ação desde o “céu” superior de todo homem, e dado também o sentido oculto universal designado de forma paralela ao Batista enquanto precursor e “homem primeiro” de toda consciência humana, suas palavras servem para expressar o assombro ou júbilo da “alma vivente” ao descobrir a presença dentro de seu próprio lar do “último Adão, espírito que dá Vida” (1Cor 15,45).
- O espírito "que dá vida" e a alma "vivente", "vivificada" pela ação do espírito constituem o homem completo em sua tricotomia segundo Paulo e muitos outros testemunhos.
O evangelho diz que o Batista “vê a Jesus vir até ele”, e esta expressão há que entendê-la como a primeira percepção ou intuição na alma da presença ou parousia do morador espiritual e eterno. A declaração que segue confirma esta suposição, pois, com efeito, “o homem que vem atrás” — Jesus — é o homem pneumático descrito em outros lugares evangélicos como — o segundo que será primeiro —, pois se põe adiante do homem psíquico — o Batista — enquanto este é o precursor, “o primeiro que será último” (vide Últimos Primeiros). Além do mais, o homem que vem atrás “existia antes”, dado que é preexistente, eterno.
Com isso fica explicado o caráter absoluto da descrição do Batista: Jesus é “o” Cordeiro de Deus. A todo homem psíquico lhe é dado como promessa de redenção, despertar o advento em sua consciência do Cordeiro de Deus, cujo alimento de Vida apaga da alma “nascida do mundo” todo pecado, uma vez que o alimento verdadeiro que dele se derrama seja assimilado inteiramente e fique com isto cumprida sua obra de liberação de oprimidos.
Embora recebido por todos e cada um dos homens como alimento de sua alma, o Cordeiro de Deus é somente um, como é somente um o Espírito de Deus, e nem mesmo ao nomear o espírito como essência última da tricotomia do homem completo: corpo, alma e espírito (1Ts 5,23), se pode sugerir com isto para a pluralidade de homens psíquicos compartimentados em pessoas, uma pluralidade de homens pneumáticos, posto que no mar infinito da luz, que é Jesus Cristo, cada filho da luz, dos quais por vezes falamos metaforicamente, é uma gota cujos contornos nenhuma mente inscrita se atreveria a delimitar.
Tudo isto o explicou Jesus, embora em parábola, e o transmite Mateus sem ceder em sua semelhança parabólica, quando quis falar do ato último e solene preparado por Deus para nossa geração humana, uma vez cumprida a consumação do mundo (synteleia) e quando todas as gotas de luz, já redimidas, tenham acedido, como anjos acompanhantes do Filho, à escadaria do trono de glória de Deus.
- O evangelista salva em seu relato todo o imaginário que há no cenário parabólico; é o que recebe o relato quem deve exercer o trabalho inteligente de desmitificar a parábola para extrair como essência a profunda verdade ali apontada com certa abstração.